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Quinta, 24 de junho de 2021
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Política

Depoimento de Luana Araújo na CPI relata ameaça, critica tratamento precoce e defende gestão Queiroga

Médica infectologista também ressaltou a importância do Brasil estar preparado para eventuais próximas pandemias.

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A CPI da Pandemia ouviu nesta quarta-feira (2) a médica infectologista Luana Araújo, anunciada em maio para o cargo de secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, mas cuja nomeação foi cancelada dez dias depois.

A princípio, estava prevista para esta quarta uma audiência pública para ouvir médicos e pesquisadores contra e a favor do uso de drogas como a cloroquina no chamado tratamento precoce contra o novo coronavírus.

O depoimento de Araújo foi adiantado, no entanto, para que a infectologista possa dar sua versão sobre a mudança antes de uma nova oitiva com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

Diferente do que aconteceu na sessão desta terça-feira (1º), onde a médica Nise Yamaguchi foi interrompida mais de 40 vezes em 1h30 de depoimento, Luana Araújo foi interpelada durante sua fala pela primeira vez às 15h04 pelo senador Marcos do Val (Podemos-ES). 

Ao interromper a médica, o parlamentar afirmou que é "fantástico" como ela "se coloca como dona da verdade" e ressaltou que Luana não tem direito de desmerecer o trabalho de outros médicos que defendem o tratamento precoce. 

Após um breve debate entre Marcos do Val e Alessandro Vieira, a infectologista recebeu a palavra de volta e disse: "não sou dona da verdade, e não estou aqui sozinha. Represento uma classe de cientistas que com muito esforço levam seu trabalho adiante". 

Um pouco antes da discussão, enquanto Marcos do Val formulava a pergunta, vazou uma reclamação do presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), criticando o questionamento do parlamentar.

"Depois de tudo que a mulher disse, vem esse cara falar uma merda dessa", captou o microfone.

Após o senador Eduardo Girão (Podemos-CE) afirmar que está "convicto de que o tratamento precoce funciona, desde que com orientação médica individual", ele questionou se Luana Araújo considera os mais de 14 mil médicos defensores no tratamento precoce charlatões.

A médica reconheceu "o sacrifício e esforço" dos colegas, mas ressaltou que lhes falta informações. 

"Reconheço o sacrifício e esforço dos meus colegas e a falta de informação que eles têm(...) A gente arrisca em algumas situações e considero natural que no inicio da pandemia a gente tenha tentado diversas coisas, mas não poderíamos insistir em algo que não tem valor e que pode vulnerabilizar as pessoas", disse a médica.

Ao inquirir Luana, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) pediu para que ela se esforçasse para descrever, com o máximo de detalhes que pudesse, a circunstância de sua dispensa pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

"Foi uma questão bastante pesarosa. Eu trabalhei o dia inteiro nesse dia na tentativa de organizar a estrutura da secretaria. Nós já sabíamos da variante indiana na Argentina e eu estava tentando organizar isso", relembrou a médica.

"No final da tarde eu fui chamada ao gabinete e achei que seria para discutir essas coisas, até porque eu tinha um acesso muito livre ao ministro. Quando entrei no gabinete ele me informou que optou pela minha nomeação, que não duvidava da minha capacidade técnica, mas que teria que abrir mão de mim porque a nomeação não teria sido aprovada", continuou.

Randolfe perguntou se ela podia dizer, então, que tinha sido vetada por alguém, mas Luana disse que não tinha como chegar a essa conclusão, já que Queiroga lhe disse apenas que não fora aprovada.

"Senti que era uma situação pesarosa. Ele [Queiroga] não me disse as causas e eu também não perguntei. Tudo é político quando a gente está aqui dentro. Existiu um pesar sobre abrir mão disso até porque estávamos desenvolvendo um bom trabalho em um período muito curto, mesmo eu não tendo sido nomeada", afirmou a especialista. 

"Eu não entendo como funcionam esses trâmites políticos. O que posso dizer é que não tem logica e não parece ter partido dele aquela decisão."

Ao explicar o funcionamento da cloroquina para a malária, para o qual o é indicada, Luana Araújo explicou que o medicamento atua de duas formas: por ação direta contra o parasita e por modulação do sistema imunológico.

"Nenhuma dessa circunstâncias foi provada ser eficaz na questão da Covid propriamente dita", afirmou. 

Ela citou ainda que alguns medicamentos antivirais para HIV que funcionaram in vitro contra a Covid-19, mas que não funcionaram no organismo humano

"Se eu colocar essa cultura viral no micro-ondas, o vírus vai morrer. Mas não é por isso que vou pedir para o paciente entrar no forno duas vezes ao dia. Entende essa diferença?", disse ao senador.

"Isso precisa ficar claro para as pessoas que estão em casa. Não é que a gente não queira que as pessoas tenham acesso àquilo que funcionaria para elas. Muito pelo contrário, nossa vida seria muito mais fácil e mais feliz (...) Se houvesse alguma oportunidade que a gente pudesse depositar nossas confianças e vida das pessoas nela, a gente teria usado. Infelizmente, com todo o pesar do mundo, não tem."

Questionada pelo senador Marcos Rogério (DEM-RO) se não seria tarefa dos médicos infectologistas procurar tratamento precoce para as doenças, Luana afirmou que essas competências são bem claras para quem atua na área, mas que muitas vezes falta esclarecimento para a população em geral.

"Quando falamos de profilaxia é impedir que a pessoa adoeça – ou diminuir o risco de adoecer. Se a gente restringir isso a pandemia de Covid-19, hoje, estamos falando da intervenção vacinal, majoritariamente. E associada a ela as outras estratégicas não farmacológicas – uso de máscara, a higiene de mãos e o distanciamento social", explicou.

"Com relação à intervenção precoce, ela não significa a adoção de terapêutico. Ela significa a intervenção para diminuir o risco de agravamento e/ou cessar a cadeia de transmissão", continuou.

"Por isso que eu mencionei que o diagnóstico precoce do paciente é fundamental, e esse plano de testagem em massa que tem tudo para ser levado a cabo pelo ministro Queiroga."

A infectologista afirmou, ao responder o senador Humberto Costa (PT-PE), que a chamada "imunidade de rebanho" não é uma estratégia inteligente e é "impossível de se atingir". 

"É muito esperado que vírus com base em material genético de RNA sofra mutações ao longo do tempo. Existem algumas poucas mutações que mudam o grau de transmissibilidade do vírus ou possibilidade de ser uma infecção mais grave. Então, a possibilidade de uma imunidade de rebanho no Sars-Cov é impossível de ser atingida", disse Luana. 

Segundo a infectologista, a imunidade só será atingida por meio da vacinação das pessoas. "Conseguimos fazer isso com a vacinação por que conseguimos uma reposta mais sólida e com um perídio de tempo mais curto. A gente atinge imunidade com vacinação sem sofrimento. Não posso imputar sofrimento e morte a uma população. Para mim, é muito estranho que a gente discuta esse tipo de coisa. Não tem lógica", afirmou.

Questionada pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) se ficou frustrada por não ter seguido à frente da secretaria no Ministério da Saúde, Luana afirmou que sim por não ter conseguido fazer tudo que gostaria.

"Se eu aceitaria, hoje, retornar diante do que estou passando aqui agora e de tudo que vem acontecendo nos últimos dias, provavelmente não", disse ela. "Eu aceitei isso tudo sabendo dos custos não só pessoais, mas também familiares. Trabalhei o tempo inteiro, fiz muita coisa por muitos lugares e não tinha razão para passar por isso."

Ela disse que aceitou o convite por ter um "senso de patriotismo" e vir de uma "família apaixonada por este país".

"Desejo do fundo do meu coração que alguém tão competente como eu, ou mais, assuma esse cargo e ajude a nossa administração a chegar nos resultados que são necessários. Mas acho difícil que isso aconteça porque as pessoas não tem necessidade de passar por isso que está acontecendo."

Perguntada pelo relator da CPI se o fato de o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ter defendido em inúmeras ocasiões o uso de remédios como a cloroquina – que não tem comprovação científica para casos de Covid-19 – pode ter estimulado as pessoas a abandonarem medidas não farmacológicas contra a doença, a médica evitou fazer uma crítica direta ao chefe do Executivo.

"Quando qualquer pessoa, independente do cargo, ou da posição social, quando defende algo que não tem comprovação cientifica, expõe pessoas do seu grupo a uma situação de extrema vulnerabilidade (...) Todo mundo que diz isso tem responsabilidade sobre o que acontece depois", disse ela.

A médica afirmou ainda haver uma série de estudos que mostram aumento da mortalidade com uso de cloroquina e hidroxicloroquina. 

"Quando transforma isso em uma decisão pessoal é uma coisa. Quando é transformado em politica publica, é outra coisa."

Ela afirmou ainda defender a autonomia médica, desde que sejam respeitados alguns pilares.

"Autonomia médica faz parte da nossa pratica, mas não é licença para experimentação. A autonomia precisa ser defendida, mas baseada em alguns pilares, da plausabilidade teórica do uso daquela medicação, do volume de conhecimento científico acumulado até aquele momento, da ética, e da responsabilização. Quando junta isso tudo, você tem sim direito a sua autonomia e precisa fazer o que é melhor para seu paciente."

A médica infectologista afirmou que não teve informações sobre aconselhamento paralelo e não encontrou ninguém que pudesse analisar que fizesse parte de um gabinete paralelo para orientar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante o breve período em que esteve no Ministério da Saúde.

"Eu não encontrei o presidente da República, não o conheci", disse Luana. "Eu fiquei praticamente isolada neste período e o contato que eu tive era com o ministro e com os assessores do ministro. Então, não tenho experiência para falar sobre isso."

Perguntada por Renan se em algum momento conversou com o ministro da Saúde sobre o chamado "tratamento precoce" para a Covid-19, Luana afirmou ser absolutamente a favor de terapias precoces que existam, o que não é o caso em relação ao novo coronavírus.

"Isso nem foi um assunto, senador. Essa é uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. Quando eu disse que há um ano estávamos na vanguarda da estupidez mundial, infelizmente ainda mantenho isso em vários aspectos", afirmou a especialista.

"Ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da Terra plana a gente vai pular. Não tem lógica."

Ela disse que em vez de desenvolver soluções e estratégias claras para ajudar os gestores, o país perde tempo discutindo algo que é "ponto pacificado" em todo o mundo. 

"É preciso que a gente aprenda com outros lugares, com outras instituições. A gente precisa ganhar tempo, como eu disse."

Perguntada por Renan se seus posicionamentos públicos contrários ao chamado "tratamento precoce" para a Covid-19 – referido pela especialista como "neocuranderismo" nas redes sociais – teria causado as divergências que impediram sua efetivação, Luana disse que não recebeu uma justificativa oficial.

"Não foi me dada nenhuma justificativa para minha saída", afirmou a médica, que disse ainda que a pergunta sobre a causa de sua saída do governo deveria ser direcionada, especificamente, para o ministro Queiroga.

"Minha posição pública, absolutamente pública, não é uma opinião. Veja bem: na medicina a gente tem opinião até o momento em que a substitui por evidências. As evidências tiram da responsabilidade individual do profissional um juízo de valor sobre a situação", afirmou.

Perguntada, então, sobre o motivo para ter começado a trabalhar mesmo antes de ser oficializada no cargo, Luana disse ter recebido uma explicação de que seria necessário esperar determinado período entre a criação da secretaria e a "apostilação dos cargos" para que pudesse ser nomeada oficialmente.

"Isso deveria ser feito para que minha nomeação fosse publicada em Diário Oficial. Minha nomeação estava programada, segundo o que me foi dito, para uma segunda-feira. Não saiu. Aí ficou para uma terça-feira, não saiu. Quando chegou na quarta-feira, eu já tinha entendido o que tinha acontecido, que aquilo não ia funcionar", explicou.

"Eu trabalhei normalmente na quarta-feira até que, à noite, eu fui chamada e comunicada de que, infelizmente, com pesar, minha nomeação não sairia."

Em outro momento, ao voltar ao tema, ela afirmou que "foi simplesmente informada que a nomeação não sairia". "Eu agradeci profundamente a oportunidade de servir ao meu país, peguei minhas coisas e voltei para Belo Horizonte."

O relator da CPI, senador Renana Calheiros (MDB-AL), perguntou se a especialista havia sofrido ameaças após o convite para o Ministério da Saúde, como relatado à CNN pela médica Ludhmila Hajjar, após convite para assumir a pasta.

Araújo disse que não entrou em mídias sociais e não teve assessores para fazer esse tipo de acompanhamento enquanto esteve no cargo.

"Depois disso, tentaram divulgar meu endereço na internet, já tentaram dizer que eu teria ligação com isso, com aquilo. Eu não tenho", afirmou.

Ela relatou, no entanto, que como vários infectologistas do país, sofreu diversos tipos de ameaça desde de o início da pandemia. 

"Isso é algo que é extremamente lamentável pela perda da oportunidade de educação do nosso povo."

Luana afirmou que, no breve período em que esteve no Ministério, foi consultora de Queiroga em vários assuntos, desde a vacinação para gestantes até o que considerou ser uma questão de extrema relevância, o programa de testagem em massa, que ela disse "esperar que seja levado adiante".

"Acho que é público que nosso programa de testagem, até este momento, é um programa com inúmeras falhas, reativo, que precisa retomar as rédeas do diagnóstico e do rastreamento de contato de pacientes – o que, infelizmente, não tinha sido levado a cabo até o momento", disse.

"Esse tipo de intervenção, de solução de problemas, é premente e foi discutido várias vezes com o ministro nesse período."

Ela disse ainda que não encontrou nenhum tipo de resistência no período em que trabalho para a pasta. "Eu entrei e trabalhei profundamente", explicou.

A médica Luana Araújo afirmou, em suas considerações iniciais, que pleiteou "autonomia, não insubordinação ou anarquia" ao Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ao apresentar suas condições para ocupar o cargo de secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19.

"O que o ministro me apresentou foi um projeto sólido, baseado em evidências, de superação desses obstáculos no contexto brasileiro e também a necessidade de alguém técnico e competente para conduzir esse trabalho", afirmou, ao senadores da CPI da Pandemia.

"Sua apresentação foi consonante aos meus valores, que claramente apresentei a ele: aceitaria o convite para essa posição conquanto me fosse garantida a autonomia necessária e sempre fossem respeitadas a cientificidade e a tecnicidade."

Araújo disse ainda que "ciência não tem lado". "[Ciência] é bem ou mal feita. Ciência é ferramenta de produção de conhecimento e educação para servir à população, priorizando a vida e a qualidade de vida", afirmou.

Ela afirmou ainda que a Covid-19 é uma "doença ardilosa", mas que a pandemia é uma "crise de confiança". 

"É imperativo que deixemos o que não presta mais de lado e busquemos uma solução para o que estamos vivendo. A cada diz que lutamos uns contra os outros, o vírus vence", disse a médica. 

"Eu me recuso a ficar calada um minuto além desses 320 dias. Fiz e faço minha parte, assim como muita gente decente neste país."

 

Breve passagem pelo governo

Em evento no dia 12 de maio em que sua nomeação foi anunciada, a médica disse que iria "coordenar a resposta nacional à Covid-19, em diálogo permanente com todos os atores". 

Dez dias depois, em nota, o Ministério da Saúde afirmou que a pasta buscava "outro nome com perfil profissional semelhante: técnico e baseado em evidências científicas".

A convocação de Luana Araújo foi requerida pelos senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Humberto Costa (PT-PE) após o cancelamento da nomeação dela para a secretaria.

“Isso aconteceu muito recentemente e ainda há dúvidas sobre o que fez o governo, o Ministério da Saúde, ao não nomear efetivamente essa pessoa. Há rumores de que seria pelo fato de que ela questiona vários pontos da condução política que o governo tem dado ao enfrentamento da pandemia”, disse o senador petista.

 

Reagendamento da pauta anterior

Na reunião da CPI na terça-feira (1º), o senador Marcos Rogério (DEM-RO) apresentou questão de ordem contra a mudança de pauta, alegando ser "intempestiva" e "desrespeitosa" com os depoentes anteriormente previstos. 

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), pediu desculpas pelo transtorno causado aos médicos previstos para serem ouvidos pela comissão, mas alegou que a CPI "é muito dinâmica" e manteve a oitiva de Luana Araújo.

Os senadores Luís Carlos Heinze (PP-RS) e Eduardo Girão (Podemos-CE) pediram, então, que as audiências canceladas sejam remarcadas.

Para falar contra esses tratamentos tinham sido convidados os médicos Clovis Arns da Cunha e Zeliete Zambom. Para defender o tratamento, a comissão ouviria os médicos Francisco Eduardo Cardoso Alves e Paulo Márcio Porto de Melo.

 

(Com informações da Agência Senado)

Fonte/Créditos: CNN Brasil

Créditos (Imagem de capa): Jefferson Rudy/Agência Senado

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