Assistimos, com indignação crescente, à decisão da Câmara Municipal de Mandaguari, Região Metropolitana de Maringá (Amusep), de instituir um vale-alimentação de R$ 1.200,00 para vereadores. A medida não apenas surpreende, ela escancara um abismo social dentro da própria administração pública. Em um cenário onde servidores municipais sobrevivem com benefícios modestos, muitas vezes insuficientes para cobrir o básico, o aumento generoso concedido aos parlamentares representa um verdadeiro insulto à população.
Não se trata apenas de números. Trata-se de prioridade, sensibilidade e, sobretudo, respeito com quem sustenta o funcionamento da cidade.
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Disparidade gritante: vereadores recebem mais que o dobro dos servidores
Enquanto servidores públicos — que atuam na limpeza urbana, atendimento em creches, unidades de saúde e repartições — recebem cerca de R$ 500,00 de vale-alimentação, vereadores garantem para si um benefício que ultrapassa o dobro desse valor.
Essa diferença não é apenas injustificável; ela evidencia uma desconexão alarmante entre quem legisla e quem executa os serviços essenciais. A política, que deveria ser instrumento de equilíbrio social, transforma-se em ferramenta de autoproteção e privilégio.
Comparativo direto:
| Categoria | Vale-Alimentação |
|---|---|
| Servidores públicos | R$ 500,00 |
| Vereadores | R$ 1.200,00 |
Essa tabela não representa apenas números. Ela simboliza um sistema que beneficia quem já está no topo da estrutura salarial.
Crise moral e falta de empatia com a realidade da população
Nós identificamos um problema mais profundo do que a desigualdade financeira: uma crise moral instalada no poder legislativo local. A concessão desse benefício ocorre em um momento em que grande parte da população enfrenta dificuldades econômicas, inflação nos alimentos e insegurança financeira.
A pergunta que ecoa nas ruas é direta: como justificar que agentes políticos, já bem remunerados, recebam benefícios superiores aos trabalhadores que mantêm a cidade funcionando?
A resposta, até agora, não veio — e o silêncio dos envolvidos apenas reforça a percepção de descaso.
O papel invertido do Legislativo em Mandaguari
A função do vereador é fiscalizar o uso do dinheiro público e garantir justiça na distribuição de recursos. No entanto, o que observamos é uma inversão perigosa: o fiscalizador passa a ser o principal beneficiado.
Essa distorção compromete a credibilidade da instituição e enfraquece a confiança da população na política local. Quando decisões como essa são tomadas, a mensagem transmitida é clara: o interesse coletivo foi deixado em segundo plano.
Por que não valorizar quem sustenta o serviço público?
Se há orçamento para conceder um vale-alimentação robusto aos vereadores, a lógica administrativa exige que o mesmo critério seja aplicado aos servidores municipais. No entanto, essa equidade não foi sequer considerada.
Nós vemos aqui um padrão preocupante:
-
Recursos existem
-
Benefícios são possíveis
-
Mas a distribuição é seletiva
E sempre favorecendo quem já possui melhores condições.
A decisão agora está nas mãos do Executivo
A prefeita Ivonéia possui a prerrogativa de vetar o projeto. Este é um momento decisivo para o futuro político e moral de Mandaguari. Vetar essa medida não é apenas uma ação administrativa — é um posicionamento claro ao lado da população.
Ao sancionar, o Executivo valida a desigualdade. Ao vetar, estabelece um limite ético.
Cenário decisório
O impacto direto no contribuinte
Cada benefício concedido ao legislativo é financiado pelo cidadão. Isso significa que o trabalhador que recebe menos é o mesmo que paga mais para sustentar privilégios políticos.
Nós não podemos ignorar esse ciclo:
-
O contribuinte financia
-
O político se beneficia
-
O servidor continua desvalorizado
Esse modelo não é sustentável — nem economicamente, nem moralmente.
Mandaguari diante de uma escolha histórica
A cidade está diante de um ponto de ruptura. Aceitar essa medida é normalizar privilégios e aprofundar desigualdades. Rejeitá-la é dar um passo em direção à justiça administrativa e ao respeito coletivo.
Nós defendemos que a política deve reduzir distâncias sociais, não ampliá-las. O momento exige coragem institucional e responsabilidade pública.
Conclusão: o limite da tolerância foi ultrapassado
Mandaguari não pode se tornar símbolo de uma política desconectada da realidade do povo. A aprovação desse vale-alimentação para vereadores representa mais do que um erro administrativo — é um retrato de prioridades distorcidas.
Nós exigimos coerência, equidade e respeito.
O poder público precisa decidir: governar para si ou governar para o povo.
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