LA PAZ — O senador Rodrigo Paz, de 58 anos, foi eleito presidente da Bolívia neste domingo (19), segundo dados quase finais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do país, com mais de 97% das urnas apuradas. O candidato do Partido Democrata Cristão (PDC) venceu o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga em uma disputa acirrada e já recebeu o reconhecimento do adversário, consolidando uma transição pacífica.
Em seu primeiro pronunciamento após o resultado, Paz afirmou que “não é uma pessoa que ganha ou perde, mas um país inteiro que decide seu futuro”, em tom conciliador. Ele agradeceu aos eleitores e reforçou o compromisso de governar “para todos os bolivianos”.
Filho de ex-presidente, mas com discurso de renovação
Rodrigo Paz é filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (que governou entre 1989 e 1993) e foi prefeito de Tarija antes de ocupar uma cadeira no Senado. Apesar de vir de uma tradicional família política, ele tenta se projetar como um líder de centro moderado, com um discurso voltado à eficiência do Estado e à inclusão social.
Seu plano de governo propõe o “capitalismo para todos”, com foco na descentralização administrativa, fortalecimento do setor privado e manutenção de programas sociais, mas com corte de gastos públicos e congelamento das estatais deficitárias.
Desafios imediatos: recessão, escassez e inflação
O novo presidente assume o comando de um país em profunda crise econômica. A Bolívia registrou, no primeiro semestre de 2025, a primeira recessão em quase quatro décadas, com retração de 2,4% do PIB. O setor extrativo, principal fonte de divisas, caiu 12,98% no segundo trimestre, e a produção de gás natural — motor da economia boliviana — segue em queda livre.
A falta de dólares e a escassez de combustíveis se tornaram problemas crônicos, afetando desde o transporte público até o abastecimento de alimentos. Filas quilométricas em postos de gasolina e diesel se tornaram rotina em várias cidades.
Motoristas de ônibus e caminhoneiros chegam a esperar até três dias para conseguir abastecer. A CAO (Câmara Agropecuária do Oriente) alertou na semana passada que a crise já paralisa plantações e ameaça o fornecimento interno de alimentos.
“Durante meses fizemos o impossível para manter viva a produção e os alimentos nas mesas bolivianas. Mas o agro está em terapia intensiva”, disse Klaus Freking, presidente da entidade.
Inflação em alta e câmbio artificial
A escassez de dólares também pressiona a inflação, que atingiu 23,32% em setembro, um dos índices mais altos da América do Sul. Analistas afirmam que o câmbio oficial — de cerca de sete bolivianos por dólar americano — é mantido artificialmente graças à queima das reservas internacionais, que estão em níveis críticos.
Para a cientista política Lily Peñaranda, qualquer governo que sucedesse Luis Arce teria de tomar “medidas impopulares, mas inevitáveis”.
“O novo presidente terá de flexibilizar o câmbio, e isso trará desvalorização, aumento de preços e perda do poder de compra. É a receita para uma crise social profunda, mas é uma transição inevitável”, avaliou.
Um país em busca de estabilidade
Com a vitória de Rodrigo Paz, a Bolívia inicia um novo ciclo político. O futuro governo precisará equilibrar ajustes econômicos severos com a preservação da paz social, em um país marcado por greves, protestos e polarização.
O desafio, segundo analistas, será transformar o discurso de “capitalismo para todos” em um projeto capaz de atrair investimentos, gerar emprego e recompor a confiança internacional — sem desamparar as camadas mais pobres da população.