Nova disputa por território com país vizinho reacende após construção de usina bilionária pela Eletrobras, envolvendo área do município de Santana do Livramento.
Um parque eólico construído no sul do Brasil reacendeu uma disputa territorial que parecia enterrada nos livros de história. O que antes era um litígio diplomático esquecido entre Brasil e Uruguai agora voltou ao centro das atenções graças a um investimento bilionário da Eletrobras em energia renovável. A construção da usina, localizada em uma área reivindicada pelos dois países, não só levantou questionamentos sobre soberania, mas também colocou em xeque a estabilidade diplomática na região. Afinal, quando o vento começa a girar turbinas e movimentar bilhões, o que vale mais: a linha de fronteira desenhada há mais de 150 anos ou o futuro energético da região?
Um pedaço do território em litígio que o dinheiro acordou
O local da polêmica é conhecido como Rincão de Artigas, uma faixa de 237 km² que o Uruguai afirma ser seu desde um suposto erro de demarcação ocorrido em 1856. Segundo os uruguaios, a convenção assinada naquele ano acabou transferindo erroneamente parte do território para o lado brasileiro, o que nunca teria sido corrigido.
O Brasil, por sua vez, considera a área parte legítima do município de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, e sustenta sua posição com base em documentos históricos e mapas oficiais. Até pouco tempo, essa era uma daquelas disputas que existiam apenas no papel, sem impacto prático, sem atenção da mídia, e, principalmente, sem dinheiro envolvido.
Mas tudo mudou com a chegada da Eletrobrás à região.
Eletrobras investe pesado e reacende conflito adormecido
Em 2024, a Eletrobras inaugurou o Parque Eólico Cochilha Negra, que ocupa uma área de 864 hectares e tem capacidade instalada para gerar 302 megawatts de energia limpa, o suficiente para abastecer cerca de 1,5 milhão de pessoas. No total, foram R$ 2,4 bilhões investidos no projeto, que inclui 72 aerogeradores e mobilizou cerca de 1300 empregos diretos e indiretos durante a fase de construção.
Além disso, a obra contou com programas sociais, como a perfuração de poços artesianos, implantação de escolas e iniciativas ambientais de monitoramento e preservação do ecossistema local.
O problema? Parte da estrutura do parque foi construída exatamente dentro do Rincão de Artigas, reacendendo a antiga disputa territorial. Com isso, o que era um impasse diplomático morno agora tem potencial para gerar atritos mais sérios entre os países.
Brasil mantém o discurso de que o território pertence oficialmente a Santana do Livramento sem abrir mão da soberania sobre a área
A inauguração do parque eólico provocou uma reação oficial do governo uruguaio. Segundo informações confirmadas pelo jornal El País do Uruguai, o país enviou uma nota diplomática ao Itamaraty, exigindo a reabertura das negociações sobre o território.
Na visão do governo de Luis Lacalle Pou, permitir que uma empresa brasileira construa uma usina bilionária em uma área disputada equivale a reconhecer tacitamente a soberania do Brasil sobre a região, algo que o Uruguai contesta firmemente.
“Não se trata apenas de uma questão simbólica, mas de um ponto sensível da nossa relação bilateral”, afirmou uma fonte do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai ao jornal La Diaria.
Enquanto isso, o Brasil mantém o discurso de que o território pertence oficialmente a Santana do Livramento e reafirma sua disposição ao diálogo, mas sem abrir mão da soberania sobre a área.
O detalhe que chamou a atenção: linha pontilhada no Google Maps
O caso ganhou ainda mais visibilidade nas redes sociais quando usuários notaram que a região do Rincão de Artigas aparece com linha pontilhada no Google Maps, o que normalmente indica áreas sob disputa internacional.
Esse detalhe visual, embora não tenha peso jurídico, ajudou a aumentar a pressão pública sobre o tema e alimentou o debate sobre a legitimidade da ocupação brasileira.
Disputa de território com Uruguai pode afetar Mercosul, como acordos comerciais, cooperação ambiental e investimentos bilaterais
Apesar do tom cordial adotado por ambos os governos até o momento, especialistas em relações internacionais alertam que a disputa pode gerar ruídos diplomáticos dentro do Mercosul, afetando inclusive outras frentes como acordos comerciais, cooperação ambiental e investimentos bilaterais.
“Territórios antes esquecidos podem ganhar novo valor estratégico quando se tornam palco de projetos bilionários ou passam a ser considerados chave para a segurança energética e ambiental”, afirmou o pesquisador uruguaio Gonzalo Ferreira, da Universidade da República, em entrevista à BBC News Brasil.
E ele tem razão. A corrida por energia limpa e tecnologia de baixo carbono está colocando novas pressões sobre áreas rurais e fronteiriças, muitas vezes antes ignoradas pelos governos centrais. Quando entram em jogo interesses como a geração e distribuição de eletricidade para milhões de pessoas, questões territoriais históricas ressurgem com força.
Quando o passado reaparece por causa do futuro
A história do Rincão de Artigas é, no fundo, um exemplo de como o passado pode ser trazido de volta ao presente por fatores que ninguém previa décadas atrás. Enquanto o Uruguai e o Brasil buscam manter a calma e a diplomacia, o simples fato de existir um empreendimento estratégico em uma zona disputada já é suficiente para acender alertas em toda a região.
E se o tom hoje é de diálogo e respeito, basta um atrito envolvendo dinheiro, soberania ou energia para que o clima mude rapidamente.