Katmandu — O primeiro-ministro do Nepal, KP Sharma Oli, renunciou ao cargo nesta terça-feira (9), pressionado por manifestações em massa lideradas por jovens da geração Z. A morte de 19 manifestantes anticorrupção em confrontos com a polícia na segunda-feira (8) e relatos de mais três vítimas nesta terça-feira intensificaram a indignação pública, abrindo caminho para a saída de Oli e a busca por uma solução constitucional.
Estopim: bloqueio de redes sociais e acusações de corrupção
Os primeiros protestos eclodiram após o governo anunciar, na semana anterior, a proibição de 26 plataformas de redes sociais, como Facebook, Instagram, WhatsApp e X (ex-Twitter). A justificativa oficial era combater “fake news”, mas críticos apontaram tentativa de censura e enfraquecimento da oposição digital. Simultaneamente, denúncias de corrupção desenfreada e a ostentação de luxo pelos chamados “Nepo Kids” (filhos de políticos) inflamaram o descontentamento entre os jovens nepaleses, que já enfrentam desemprego juvenil acima de 20% e baixa perspectiva de futuro econômico.
Repressão violenta e números de vítimas
Na segunda-feira, as forças de segurança usaram munição real, canhões de água e gás lacrimogêneo para dispersar milhares de manifestantes. Pelo menos 19 pessoas foram mortas naquele dia, segundo autoridades locais, e há registros de mais três mortes em novas operações de dispersão nesta terça-feira. Centenas de feridos foram hospitalizados, incluindo policiais e civis, em confrontos que também registraram incêndio de viaturas e guaritas policiais nas ruas de Katmandu.
O protagonismo da geração Z
Nascidos entre 1995 e 2010, os primeiros nativos digitais recrutaram adeptos via TikTok, Instagram e YouTube. Para eles, o bloqueio das redes sociais foi o gatilho de uma mobilização que já fermentava há anos contra o autoritarismo, o nepotismo e a estagnação econômica. Analistas apontam que, diferentemente de protestos anteriores, o movimento atual uniu massa crítica virtual e ocupação física das vias públicas num ritmo inédito, transformando hashtags em multidões de verdade nas ruas da capital.
Renúncia e repercussões políticas
Em carta ao presidente, Oli invocou a “situação extraordinária” do país para justificar sua renúncia e declarou que deixaria o cargo para facilitar uma solução política e constitucional. Antes de sair, revogou a proibição das redes sociais. O gabinete também recebeu outras baixas: o ministro do Interior, Rasmesh Lekhak, e o titular da Agricultura, Ramnath Adhikari, apresentaram demissão, condenando o uso de força letal contra manifestantes. A ONU e grupos de direitos humanos pediram investigações transparentes sobre as mortes durante os protestos.
Próximos passos
Com a renúncia de KP Sharma Oli, o Nepal inicia uma fase de transição política em meio à maior crise social e institucional dos últimos anos. O Congresso Nepalês e partidos de oposição já discutem formação de um governo interino, enquanto manifestantes seguem mobilizados, exigindo reformas profundas no sistema político e no combate à corrupção.
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