Uma "brincadeira" de extremo mau gosto e requintes de crueldade que tomou conta do TikTok acaba de virar caso de polícia — e da polícia mais temida do país. A Polícia Federal (PF) instaurou um inquérito rigoroso para investigar a perturbadora trend (tendência) "Caso ela diga não", que agrupa vídeos onde jovens fazem apologia direta à violência e ao assassinato de mulheres.
A ação rápida atende a uma notícia-crime protocolada pela Advocacia-Geral da União (AGU) no último domingo, 8 de março, em pleno Dia Internacional da Mulher. O que parecia apenas conteúdo viral escondia, na verdade, uma ameaça criminosa à integridade feminina.
"Treinando caso ela diga não": O Horror por Trás da Tela
A denúncia da AGU escancarou o nível de misoginia que circula livremente nos celulares. Nos vídeos investigados, jovens aparecem simulando sessões de espancamento — com direito a socos, chutes e até facadas — contra manequins que representam figuras femininas.
A justificativa para a barbárie? A simples rejeição. Os conteúdos trazem mensagens que incentivam agressões caso a mulher negue um relacionamento, um beijo ou um pedido de casamento. A frase “Treinando caso ela diga não” acompanha as imagens, chocando autoridades e grupos de defesa dos direitos humanos.
A Polícia Federal não apenas confirmou a abertura do procedimento investigativo, como já tomou a primeira medida drástica: exigiu que a plataforma retire os vídeos do ar imediatamente, mas preserve os dados de todos os usuários envolvidos. Ou seja: apagar o vídeo não vai salvar os autores da investigação.
Os Alvos: Quem São os Perfis na Mira da PF?
O Procurador Nacional da União de Defesa da Democracia (PNDD), Raphael Ramos, já rastreou e identificou, até o momento, pelo menos quatro perfis responsáveis por disseminar esse tipo de material criminoso.
Na peça enviada à PF, Ramos foi categórico ao afirmar que o conteúdo destrói os esforços públicos de proteção às mulheres e de igualdade de gênero. Para a AGU, a vítima não é apenas uma pessoa, mas toda a sociedade feminina.
"A vítima, nesse contexto, é a coletividade feminina, atingida em sua condição de sujeito de direitos fundamentais, sobretudo quando o conteúdo divulgado assume a forma de incitação à prática de crimes ou de apologia de fatos criminosos, enquadráveis, em tese, como crimes contra a paz pública" — Raphael Ramos, Procurador da PNDD.
Quais Crimes os Autores Podem Responder?
A falsa sensação de anonimato da internet pode custar caro. Segundo a representação, os vídeos não são apenas mau comportamento, mas configuram estímulo direto a crimes severos previstos no Código Penal Brasileiro. Os responsáveis podem ser enquadrados por:
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Incitação e apologia ao crime;
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Ameaça e perseguição (Stalking);
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Intimidação sistemática (Cyberbullying);
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Violência psicológica contra a mulher;
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Lesão corporal e estímulo ao Feminicídio.
O Cenário de Sangue: 4 Feminicídios por Dia no Brasil
O alerta gerado por essa trend não é exagero. O Brasil vive uma epidemia de violência de gênero. O perigo de vídeos como o "caso ela diga não" é que o ódio virtual frequentemente se transforma em sangue no mundo real.
Na última semana, em uma resposta à escalada da violência, os chefes do Executivo, Legislativo e Judiciário lançaram o Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio. O cenário é classificado como alarmante pelas autoridades: o país registra a assustadora marca de quatro feminicídios por dia.
A mensagem das autoridades agora é clara: a internet não é uma terra sem lei, e o ódio contra as mulheres não será tratado como "trend" passageira. A caçada digital já começou.