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Quinta-feira, 30 de Abril 2026
Saúde

Pesquisa indica dificuldades de acesso a diagnóstico e terapias para autistas no Brasil

Apenas 15,5% dos participantes relataram receber terapias através do sistema público, enquanto mais de 60% utilizam planos de saúde ou arcam com os custos particulares.

Portal Paraná Urgente
Por Portal Paraná Urgente
Pesquisa indica dificuldades de acesso a diagnóstico e terapias para autistas no Brasil
© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
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Um estudo inédito, denominado Mapa Autismo Brasil (MAB), que mapeou o perfil sociodemográfico nacional de pessoas autistas, revelou que a disponibilidade de diagnóstico e tratamento para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) no país ainda é limitada.

A pesquisa, divulgada pelo Instituto Autismos, abrangeu autistas e seus cuidadores em todas as regiões do Brasil, com o intuito de traçar um panorama do indivíduo autista brasileiro e dos serviços a que ele tem acesso.

O levantamento, realizado entre 29 de março e 20 de julho de 2025, coletou 23.632 entrevistas online. Deste total, 16.807 foram de responsáveis por autistas, 4.604 de adultos autistas e 2.221 de pessoas que se identificaram tanto como autistas quanto como responsáveis.

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Os resultados apontam que, mesmo com cerca de 25% da população brasileira contando com planos de saúde, apenas 20,4% dos entrevistados confirmaram ter recebido o diagnóstico de TEA por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

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Adicionalmente, o estudo constatou que somente 15,5% dos participantes recebem terapias pela rede pública. Em contrapartida, mais de 60% recorrem a planos de saúde privados ou efetuam pagamentos particulares para acessar esses serviços.

O Instituto Autismos avalia, em comunicado, que a escassez de recursos é ainda mais acentuada.

“Os dados do Mapa Autismo Brasil demonstram que 56,5% dos entrevistados, independentemente de usarem o SUS ou a rede privada, informaram que a pessoa autista (seja o próprio respondente ou alguém sob sua responsabilidade) realiza até duas horas semanais de terapia. Esse número contrasta com as recomendações internacionais, que preconizam terapias multidisciplinares com uma carga horária semanal elevada.”

Análise do cenário

Em maio de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou informações pioneiras do Censo Demográfico 2022, indicando a existência de 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil, o que representa 1,2% da população nacional.

“Ao contrário do Censo, o Mapa Autismo Brasil foca na análise socioeconômica e no acesso a serviços para autistas e seus cuidadores. A pesquisa contribui para uma avaliação do contexto atual e direciona a necessidade de aprimoramentos nas políticas públicas”, ressaltou o Instituto Autismos.

Perfil do autista brasileiro

As 23.632 entrevistas realizadas permitiram a construção do seguinte perfil do autista no Brasil:

  • 60,8% se autodeclararam brancos, 32% pardos, 5,2% pretos, 1,1% amarelos e 0,25% indígenas.
  • 65,3% são homens e 34,2% são mulheres.
  • 72,1% estão na faixa etária de até 17 anos, enquanto 27,9% têm entre 18 e 76 anos.
  • 28,6% possuem renda familiar de até R$ 2.862; 37,9% ganham entre R$ 2.862 e R$ 9.540; e 20,33% têm renda superior a R$ 9.540.
  • 53,7% necessitam de nível 1 de suporte (o mais baixo); 33,7% de nível 2; e 12,6% de nível 3 (que exige maior assistência diária).
  • Em relação a comorbidades, 51,5% apresentam Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH); 41,1%, transtorno de ansiedade; 27,9%, distúrbios do sono; 23,2%, problemas gastrointestinais; 19,3%, transtorno do desenvolvimento da linguagem; 19,1%, altas habilidades/superdotação; 17,5%, transtorno depressivo; 16,4%, deficiência intelectual; e 12,1%, transtornos específicos de aprendizagem.
  • No quesito comunicação, 55,5% expressam-se por meio de frases completas e extensas; 29,5% utilizam ecolalias (repetição de palavras ou frases); 28,1% falam poucas palavras ou frases; 7,65% não verbalizam nem utilizam comunicação aumentativa e alternativa (CAA) ou escrita; 4,15% falam pouco e empregam CAA; 3,51% não verbalizam, mas usam CAA; e 0,59% utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Entre os entrevistados que são responsáveis por autistas, 96% são pais ou mães, sendo que 92,4% destes são mães.

No grupo de cuidadores, 55,2% possuem ensino superior completo ou pós-graduação. Cerca de 30,47% dos cuidadores declararam não ter renda ou estarem desempregados. Uma parcela significativa está inserida no mercado de trabalho formal, especialmente como servidores públicos (21,9%) e empregados com carteira assinada (CLT) (16%), além de modalidades informais e autônomas.

“A alta proporção de cuidadores fora do mercado de trabalho sugere que as demandas de cuidado impactam diretamente a trajetória profissional, aumentando a vulnerabilidade econômica e a dependência de políticas de proteção social”, avaliou o Instituto Autismos.

Um total de 76,6% dos entrevistados indicou utilizar algum tipo de benefício. Contudo, a maioria está relacionada ao acesso e identificação: 36,7% utilizam o cartão de identificação da pessoa com TEA, 30% usufruem de atendimento preferencial em serviços e 20,7% utilizam vagas de estacionamento para pessoas com deficiência.

Apenas 16,6% relataram ter acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), 12,9% utilizam o passe livre para pessoas com deficiência e 7,7% possuem isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

Acesso ao diagnóstico

A pesquisa Mapa Autismo Brasil expõe as dificuldades no acesso ao diagnóstico de TEA via SUS, além de um atraso geral no processo diagnóstico, o que prejudica intervenções precoces.

Os resultados apontam uma concentração de diagnósticos na faixa etária de até 4 anos (51,7%), seguida pela de 5 a 9 anos (17,1%) e pela de 10 a 14 anos (6,1%).

“A disparidade entre a mediana (4 anos) e a média (11 anos) indica que, embora a maioria dos diagnósticos ocorra na infância, ainda há um número considerável de diagnósticos realizados em idades mais avançadas, o que eleva a média geral da amostra”, alertou o Instituto Autismos.

A investigação identificou que os primeiros sinais de TEA são notados predominantemente por familiares próximos (55,9%) ou pela própria pessoa autista (11,4%). Médicos e professores, por sua vez, sinalizaram os indícios em apenas 7,3% e 9,4% dos casos, respectivamente.

Segundo o estudo, neurologistas ou neuropediatras foram os responsáveis pelo diagnóstico em 67% das situações, seguidos por psiquiatras (22,9%). Para o Instituto Autismos, isso reforça a necessidade de acesso a especialistas, que nem sempre estão disponíveis nas redes públicas ou privadas em todas as localidades.

Os dados revelam que 55,2% dos diagnósticos foram realizados na rede particular, 23% por meio de planos de saúde e apenas 20,4% pelo SUS. Essas proporções variam de acordo com as regiões do país, sendo a dependência do SUS maior no Norte e no Nordeste.

Tratamentos terapêuticos

Entre as terapias mais comuns, destacam-se a psicoterapia (52,2%), terapia ocupacional (39,4%), fonoaudiologia (38,9%), psicopedagogia (30,8%) e terapia ABA (29,8%).

Em menor escala, foram relatadas fisioterapia (12,5%), nutrição (10,2%), musicoterapia (11,0%), psicomotricidade (15,0%), equoterapia (4,3%) e estimulação precoce (3,7%).

Observou-se também que 16,4% dos participantes não realizam qualquer tipo de terapia.

Ao serem questionados sobre a rede utilizada para as terapias, 15,5% mencionaram o SUS, enquanto 35,3% utilizam planos de saúde, 28,5% recorrem à rede particular e 7,93% buscam associações, como as APAEs (Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais).

Entre os usuários do SUS, apenas 33,8% realizam terapia ocupacional, em contraste com 64,5% dos usuários de planos de saúde. Usuários do SUS também reportaram acesso significativamente menor a sessões de psicoterapia, fonoaudiologia, terapia comportamental ABA, psicomotricidade e musicoterapia em comparação com o acesso via plano de saúde.

Os resultados do MAB indicam que o investimento mensal em terapias concentra-se nas faixas de R$ 501 a R$ 1.000 (24,8%), de R$ 1.001 a R$ 3.000 (22,2%) e de R$ 101 a R$ 500 (20,9%). Segundo os dados, 5,7% têm um investimento mensal de até R$ 100.

Dentre os respondentes, 4,3% relataram gastos mensais superiores a R$ 5.000 e 4,2% não souberam informar o valor.

Considerando tanto os que utilizam a rede pública quanto a privada de saúde, a carga horária semanal de terapias informada é baixa, segundo a avaliação do Instituto Autismos. A maioria realiza uma hora (25,90%), nenhuma (18,13%) e duas horas (12,44%) semanais de terapia, enquanto apenas 1,54% alcança 40 horas ou mais.

“A concentração em poucas horas semanais sugere limitações de acesso, custo e disponibilidade de serviços, indicando que grande parte das pessoas autistas recebe suporte terapêutico aquém do ideal para necessidades mais intensivas”, destacou o instituto.

Educação e vida adulta

Os resultados também retratam o acesso à educação. Do total, 83,7% informaram frequentar uma instituição de ensino, sendo 52,26% em escolas públicas e 31% em estabelecimentos particulares. Cerca de 16% declararam não frequentar nenhuma instituição.

Em relação aos recursos de acessibilidade e inclusão, 39,9% relataram não receber qualquer tipo de apoio. Dentre os suportes mais comuns, destacam-se educador social, monitor ou tutor (23,8%), acompanhamento especializado (como mediador escolar ou acompanhante terapêutico) (18,8%), adaptações pedagógicas (18,8%) e sala de recursos (18,1%).

“Os dados evidenciam que a presença na escola não garante, por si só, a inclusão efetiva. A alta proporção de estudantes sem apoios básicos sugere fragilidade na implementação das políticas de educação inclusiva e desigualdade no acesso aos recursos educacionais previstos em lei”, avaliou o Instituto Autismos.

Na faixa etária de 18 a 76 anos, 29,9% dos autistas respondentes afirmaram estar desempregados ou sem renda, o que, para o instituto, aponta um desafio estrutural de inclusão.

Entre os que declararam estar empregados, 21,1% atuam como servidores públicos, 20% possuem emprego com carteira assinada, 8,1% trabalham de forma autônoma, 6,7% exercem como pessoa jurídica e 5,9% realizam atividades sem carteira assinada.

Adicionalmente, 4,1% dependem de auxílio governamental, 3,5% recebem aposentadoria ou pensão e 0,35% integram a carreira militar.

FONTE/CRÉDITOS: Por Redação Paraná Urgente

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