A morte da estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, encontrada no pátio de um condomínio de luxo em Fortaleza (CE), colocou o trabalho da perícia no centro de um caso que ainda possui diversas perguntas a serem respondidas.
Os exames iniciais realizados na jovem apontaram politraumatismo e lesões compatíveis com impacto contra o solo, enquanto o toxicológico apresentou resultado negativo. Mas determinar a causa da morte não significa, necessariamente, reconstruir toda a dinâmica que levou até ela. É justamente por isso que diferentes elementos vêm sendo analisados pela investigação, entre eles, imagens de câmeras de segurança, dados de aparelhos eletrônicos e vestígios de DNA coletados no condomínio.
Esse caso ajuda a mostrar algo que as séries policiais nem sempre conseguem transmitir: a perícia não deveria partir de uma narrativa previamente estabelecida para buscar elementos que a confirmem. O trabalho consiste em testar hipóteses a partir dos vestígios encontrados e interpretar diferentes fontes de informação em conjunto, e talvez um dos maiores mitos popularizados pela ficção seja justamente o de que encontrar o DNA de uma pessoa em uma cena significa automaticamente descobrir o responsável pelo crime. Nas séries, um perfil genético é obtido em poucos minutos e logo surge um nome culpado, praticamente encerrando a investigação.
Na realidade, o DNA é uma evidência extremamente poderosa, mas precisa ser interpretado dentro de um contexto. Encontrar o material genético de uma pessoa pode indicar que, em algum momento, ela teve contato com determinado objeto ou acesso a um local. Isso, sozinho, não revela quando, como ou em quais circunstâncias esse material chegou ali. Um bom exemplo é o chamado touch DNA, material genético que pode ser recuperado de uma superfície após o contato. Ele pode ter origem em células da pele, por exemplo, mas sua quantidade e qualidade variam bastante. Mais importante: sua presença, isoladamente, não permite reconstruir como aquele DNA chegou à superfície.
Existe ainda a possibilidade de transferência indireta. Imagine que uma pessoa A aperte a mão de uma pessoa B e, depois, toque determinado objeto. Dependendo das circunstâncias, material biológico de B pode ser transferido para uma superfície na qual B nunca tocou diretamente. Por isso, não basta perguntar a quem determinado DNA pertence. É preciso considerar também qual é o mecanismo plausível para que ele tenha chegado até aquele local.
As impressões digitais sofrem de uma distorção semelhante na ficção, já que nos filmes, praticamente toda superfície tocada pelo suspeito produz uma impressão completa, que rapidamente leva à sua identificação. Na realidade, uma impressão pode estar parcial, borrada, sobreposta ou degradada e não apresentar características suficientes para uma comparação conclusiva. Assim como acontece com o DNA, encontrar uma impressão digital não significa automaticamente que aquela pessoa esteja envolvida em um crime. Da mesma forma, não encontrar uma impressão não significa necessariamente que não houve contato.
Outra limitação pouco mostrada nas telas é que nem toda amostra de DNA produz um perfil genético completo e interpretável. O material coletado pode estar degradado ou conter uma mistura de DNA de diferentes pessoas. Nesses casos, a interpretação pode se tornar mais complexa e exigir avaliação estatística das possibilidades e da qualidade da evidência.
Há ainda riscos de contaminação e transferência, razão pela qual procedimentos de coleta, equipamentos de proteção, controles laboratoriais, documentação e cadeia de custódia são fundamentais. A televisão frequentemente apresenta o DNA como uma espécie de evidência perfeita. Na prática, a ciência forense trabalha também com limitações e diferentes níveis de incerteza.
Essa distância entre a ficção e a realidade contribuiu para o chamado “efeito CSI”: a influência que séries policiais e programas de investigação podem exercer sobre aquilo que as pessoas esperam da ciência forense e das provas apresentadas em um processo criminal. Um jurado, por exemplo, pode esperar encontrar DNA, impressões digitais, vídeos ou algum outro vestígio altamente conclusivo em praticamente qualquer investigação. Quando isso não acontece, pode surgir a percepção equivocada de que não existe prova suficiente. Mas nem todo crime produz material biológico e, mesmo quando ele existe, nem sempre é possível obter um perfil interpretável.
Na minha experiência profissional, já trabalhei em casos de roubo nos quais a própria vítima indicava exatamente onde eu deveria procurar impressões digitais, afirmando ter certeza de que elas estariam naquele ponto porque o suspeito havia tocado ali. Na prática, nem sempre uma impressão pode ser recuperada - e sua ausência não significa que aquele contato não tenha acontecido.
Existe ainda outro risco: interpretar de maneira equivocada o peso estatístico de uma evidência genética. É o que chamamos de “falácia do promotor”, quando se confunde a probabilidade de encontrar determinada evidência caso o acusado seja inocente com a probabilidade de ele ser inocente diante daquela evidência. Em outras palavras, uma pista estatisticamente rara não deve ser automaticamente transformada em prova definitiva de culpa.
O caso de Isabelle, cuja dinâmica da morte continua sendo investigada, ajuda a trazer essa discussão para fora das telas. A coleta de DNA é uma das peças de uma investigação que também envolve imagens, dados digitais, exames periciais e depoimentos. Um vestígio isolado raramente conta toda a história, é a análise conjunta das evidências, considerando seus limites e o contexto em que foram encontradas, que permite construir uma interpretação tecnicamente mais consistente do que realmente aconteceu.
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