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Segunda-feira, 09 de Marco de 2026

Política

COMANDANTE ESTER, ONDE ESTÁ VOCÊ?

Comandante Esther ajudou a fundar a FMLN

Tadeu França
Por Tadeu França
COMANDANTE ESTER, ONDE ESTÁ VOCÊ?
Ilustrativa
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Eu a conheci durante a Assembleia  Nacional Constituinte. Ao lado de outros três integrantes do comando da guerrilha salvadorenha, todos ocultos sob nomes de guerra em busca de uma recepção que se tornou impossível pelo então Presidente José Sarney, aceitaram conversar com um pequeno grupo de constituintes do PDT.

De nossa parte, já havíamos recebido instruções do líder Leonel Brizola, no sentido de que realizássemos todos os esforços para convencê-los de que a única saída para a guerrilha seria a mesa de negociações. O novo Presidente norte-americano era Ronald Reagan, que havia adicionado apoio militar ao governo local, que já havia recebido importante ajuda financeira. 
-É preciso insistir na realidade. Não  há  correlação  de forças. Mais de 50.000 cadáveres já foram o preço  da guerra civil.
Ouvi as ponderações da parte deles, bem como os apelos dos constituintes Brandão Monteiro e Doutel de Andrade. Em minha companhia a Joseane, filha primogênita com 13 anos de idade. Iniciei a fala perguntando: qual era a rotina da guerrilha salvadorenha?
Respondeu- me a guerrilheira:
-Nós nos dividimos em muitos pequenos agrupamentos de três revolucionários dos quais somente 01 é o franco-atirador, ladeado por dois auxiliares atentos a quaisquer emergências.
-Somente isso, Comandante Ester? Até  onde eu sei,  são mínimas as coberturas florestais em El Salvador. Lembrem- se de que no Vietnam sobravam rios, esconderijos florestais e túneis em abundância. 
Vocês estão  sabendo  que a luta  não  é mais contra um governo nacional decadente, mas contra aviões  e tanques-de-guerra do império?
-É muito melhor assim - interveio o comandante Leonel. -Serão massacrados com as próprias armas com que nos ameaçam.
Não estava fácil argumentar sob esse enfoque. 
-Comandante Ester - voltei à carga. - Você é uma  linda mulher. Não  gostaria de saber que bombas americanas a estrangularam.

É impossível  uma solução  militar para a crise. Um namorado certamente a espera. Você  merece ser feliz...
Indiferente aos meus argumentos, a guerrilheira sentou-se  ao lado de minha filha e sussurrava aos ouvidos dela:
-Volte conosco a El Salvador. Adolescentes como você prestam valioso apoio à causa dos oprimidos.
-Até que eu gostaria -respondeu a minha filha- mas o meu pai não  me deixaria nunca viajar com vocês.
-Interrompi a fala sem mais delongas.
A Comandante Ester olhou sorrindo para mim.
Hoje, passados muitos anos, Comandante Ester, obtive informações a seu respeito. Numa reportagem rápida, notei que ali você estava: grávida, o rosto angustiado atrás das grades e uma observação: a Comandante  salvadorenha Ester- nome de guerra-deverá ser morta, assim que o bebê  nascer.
Lembrei-me  tanto que, ao término  de nosso encontro, você  havia comentado que a sua decisão pela guerrilha havia ocorrido ante o sangue do Arcebispo Oscar Arnulfo Romero de San Salvador, assassinado a tiros de fuzil por dois mercenários a serviço dos EUA, enquanto celebrava a missa na capela carmelita do Hospital de la Divina Providencia em 1980, mal conseguindo pronunciar que "um bispo pode morrer, mas a Igreja de DEUS que está no povo jamais morrerá".
A guerra civil  terminou com a assinatura dos Acordos de Paz de Chapultepec em 1992.
Soube mais tarde que um dos guerrilheiros que nos visitaram sob o nome de guerra de Leonel, era o Salvador Cerén, que chegou a ser eleito Presidente da República de El Salvador pelo partido da FFMLN.
Quanto a você, Comandante Ester eu gostaria muito de saber se você  está...viva ou morta.

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FONTE/CRÉDITOS: Tadeu França / Ex-deputado federal constituinte
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