São Paulo - Em uma demonstração audaciosa de poder do crime organizado, o ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, de 63 anos, foi brutalmente assassinado a tiros de fuzil na noite desta segunda-feira (15), em Praia Grande, no litoral paulista. O ataque, com características de execução, ceifou a vida de um dos mais emblemáticos e combativos policiais do estado, notório por ter sido o primeiro a investigar a fundo a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no início dos anos 2000.
Fontes, que atualmente ocupava o cargo de secretário de Administração de Praia Grande, foi emboscado ao sair da prefeitura. Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que seu veículo foi interceptado por criminosos. Na tentativa de escapar, o ex-delegado colidiu com um ônibus. Em seguida, três homens armados com fuzis desceram de outro carro e efetuaram múltiplos disparos, matando-o no local.
A ação criminosa também deixou outras duas pessoas feridas, um homem e uma mulher, que foram socorridos e não correm risco de vida.
Um Histórico de Confronto com o Crime
A execução de Ruy Ferraz Fontes é um ataque direto ao coração da segurança pública paulista e encerra uma trajetória de mais de 40 anos dedicada à polícia. Sua carreira foi marcada pela atuação em departamentos de elite como o de Roubo a Bancos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), o Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e o Departamento de Repressão ao Narcotráfico (DENARC).
Foi à frente do DEIC que Fontes se tornou uma pedra no sapato do PCC. Em uma investigação pioneira, ele foi o responsável por indiciar toda a cúpula da facção em 2006, incluindo seu líder máximo, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. Sua gestão como delegado-geral, entre 2019 e 2022, também foi marcada por ações contundentes contra o crime organizado.
Fontes já havia sobrevivido a um plano de assassinato em 2010, quando criminosos ligados ao PCC foram presos com um fuzil em frente ao 69º Distrito Policial, onde ele trabalhava.
Força-Tarefa e Investigação
A resposta ao assassinato foi imediata e enérgica. O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, anunciou a criação de uma força-tarefa para investigar o crime e prender os responsáveis. O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) foi destacado para apoiar a Polícia Civil nas investigações.
As principais linhas de investigação apontam para uma retaliação do PCC, devido ao histórico de combate de Fontes à facção. Outra hipótese apura a possível relação do crime com uma licitação na Prefeitura de Praia Grande que teria contrariado interesses de uma organização ligada ao crime.
Repercussão e Luto
A morte de Ruy Ferraz Fontes gerou uma onda de comoção e repúdio entre autoridades e colegas de profissão. Em nota, a Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (Adepol) classificou o crime como uma "tragédia de proporções inenarráveis, que atinge não apenas a Polícia Civil, mas toda a sociedade brasileira".
O procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, e o secretário Guilherme Derrite prometeram empenho total na elucidação do caso. O governador de São Paulo também lamentou a morte e determinou prioridade máxima na caça aos criminosos.
Ruy Ferraz Fontes era graduado em Direito e pós-graduado em Direito Civil. Iniciou sua carreira como delegado titular em Taguaí e, ao longo de sua trajetória, tornou-se uma referência no combate ao crime organizado no Brasil. Ele havia assumido a Secretaria de Administração de Praia Grande em 2023, onde permanecia na atual gestão municipal, iniciada em 2025.