Brasília — A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) tornou-se palco de uma nova disputa política. A bancada governista se mobiliza para impedir a convocação de José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), citado em requerimentos da oposição por ocupar a vice-presidência do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi).
Estratégia de contenção
Aliados do governo alegam que não há justificativa técnica para a oitiva de Frei Chico, sustentando que diretores de sindicatos não devem ser colocados no centro das apurações. “O presidente do sindicato, sim, podemos chamar, e aí se precisar podemos chamar o vice. Mas o fato é que não estamos chamando todos os diretores dos sindicatos”, afirmou o deputado Alencar Santana (PT-SP), integrante da CPMI.
A base também argumenta que a convocação não pode se dar apenas por laços familiares com o presidente. “Não é investigação parental”, reforçou Santana, em referência ao histórico de CPIs que desgastaram o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus familiares, como a CPMI da Pandemia.
Acusações de parcialidade
Além da resistência à convocação, os governistas também questionam a atuação do relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), alegando que ele já teria demonstrado julgamento prévio. “Como relator, ele não pode fazer isso, ele compromete e contamina a CPI”, criticou Santana.
A crítica, no entanto, contrasta com o silêncio da base em CPIs anteriores, como a da Pandemia, quando os senadores Omar Aziz (PSD-AM) e Renan Calheiros (MDB-AL), alinhados ao governo Lula, fizeram ataques diretos ao então presidente Bolsonaro e seus aliados.
Acordo político e recuo estratégico
Nos bastidores, a articulação governista resultou em um acordo com a oposição para evitar a convocação de Frei Chico. Em troca, o escopo da investigação foi ampliado para incluir o período do governo Dilma Rousseff, e o nome do sindicalista ficou fora da lista de 55 convocados aprovados pela comissão.
Segundo o senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI, a convocação de figuras políticas será feita apenas com base em evidências concretas. “Não há previsão de que esse senhor [Frei Chico], ou outros ligados ao governo anterior, seja convidado sem as devidas provas”, declarou após a sessão.
Reações e próximos passos
A oposição, por sua vez, promete continuar pressionando por isonomia nas apurações. O senador Marcos Rogério (PL-RO) afirmou que os acordos firmados são “a fotografia do momento” e que Frei Chico ainda pode ser chamado futuramente. “Pretendo questionar justamente o porquê de as investigações não terem avançado em relação a ele”, disse.
A CPMI do INSS segue com depoimentos agendados, incluindo figuras centrais no escândalo de descontos indevidos e operações de crédito consignado compulsório. A tensão política, no entanto, promete se intensificar à medida que os trabalhos avançam.
Análise: A blindagem a Frei Chico expõe o embate entre narrativa política e critérios técnicos na CPMI. A tentativa de evitar desgaste ao governo Lula pode se tornar um novo foco de polarização, especialmente se a oposição insistir em explorar vínculos familiares como estratégia de pressão.