Recentemente fiz aqui meus questionamentos sobre a IA (Inteligência Artificial) aplicada às artes, especificamente à criação musical.
Antes de retomar essa pauta, vamos definir o que vem a ser “expressão artística”: seria algo como uma manifestação de ideias, emoções e experiências por meio de diferentes formas. É a maneira pela qual os artistas comunicam sua visão de mundo e estabelecem uma conexão com o público. É usar o storytelling para se conectar com pessoas, e ao se conectar com muitas pessoas, temos o que chamamos de “sucesso”.
Se considerarmos que a arte do storytelling tem suas raízes nas experiências pessoais acumuladas, concluo que a expressão artística pode ser definida como a arte de contar histórias por meio de uma narrativa envolvente, comunicando de maneira impactante e significativa.
Muito tem-se falado sobre o uso da IA nos mais variados campos e todos concordamos que, em algum momento, teremos profissões desaparecendo, plataformas se tornando obsoletas e até… a expressão artística sendo criada por softwares “inteligentes”. Hoje você cria textos, imagens, apresentações e MÚSICA usando algoritmos de IA. A maioria das pessoas está achando tudo divertido, e até defendendo que “as máquinas nunca serão inteligentes o suficiente para pensar, apenas para replicar”. Será, mesmo?
Se a inteligência é o produto do processamento da informação que você acumulou, eu pergunto: quem tem maior capacidade de processar informações, nós ou as máquinas? E a diferença só vai aumentar. Se um algoritmo de IA é capaz de criar uma música do zero, isso é arte ou é fraude?
As gravadoras e plataformas digitais de música têm tentado bloquear a distribuição de obras criadas por IA alegando fraude, e não apenas aquelas que emulam vozes conhecidas, como a do Drake e a do The Weeknd, que se tornaram virais nessas plataformas, e acabaram por ser “derrubadas”, mas todas as criações que não sejam "expressões humanas". Significa dizer que perder um jogo de xadrez para um computador é fraude? Um texto escrito com auxílio do ChatGPT é fraude? Fazer uma análise de dados utilizando-se de plataformas de IA lhe confere uma vantagem competitiva fraudulenta?
Ora, não há como, em minha opinião, separar os usos e aplicações de uma tecnologia como sendo boas quando me interessam, e ruins quando me ameaçam, ou aos meus negócios. Estima-se que hoje mais de 10% das músicas publicadas diariamente nas plataformas digitais sejam obra de IA. Talvez seja mais. E não vai parar.
A tecnologia vai seguir avançando, para o bem ou para o mal. Talvez até valha a reflexão que não estamos fazendo: esqueçamos máquinas humanóides que nos ameaçam, esqueçamos softwares revoltados se insurgindo. A IA poderá usar, em futuro nem tão distante, toda a sua capacidade impensável de processamento para, eventualmente, nos controlar apenas contando boas histórias, nos convencendo de fatos nem sempre reais, e também nos fazendo crer que criam boa música.
Texto escrito por Marcelo Braga, Diretor Superintendente - Rede Mix de Rádio e TV. Achei interessante reproduzir aqui.