Desde janeiro deste ano, ao menos 495 pessoas perderam a vida em todo o país em desastres em decorrência das chuvas, segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) com base nos dados das defesas civis municipais. A tragédia mais recente ainda ocorre em Alagoas, onde enchentes tiraram a vida de seis pessoas, e Pernambuco, onde 126 pessoas morreram por causa de deslizamentos de terras, que soterraram dezenas de pessoas, além de afogamentos e outros casos relacionados a inundações. Somente em Recife, foram 50 óbitos.
O número de mortes causadas pelo excesso de chuvas no Brasil em 2022 é o maior dos últimos 10 anos e corresponde a mais de 27% de todas as vítimas registradas na década. De 1º de janeiro de 2013 a 1º de junho de 2022, foram registrados 1.777 óbitos por consequências das chuvas – como deslizamentos de terra e afogamentos. Os quatro últimos anos foram os mais mortais da década, com 320 pessoas morrendo todos anos em média por causa dos desastres decorrentes.
Não existe no horizonte políticas públicas que contenham o avanço da ocupação massiva sobre áreas de encostas e vales, provocado pelo aumento da população em moradias precárias, o que deixa a triste certeza de que novas tragédias ocorrerão nos próximos anos, faltando apenas definir onde ocorrerão.
A estimativa atual é de que pelo menos 10 milhões de pessoas vivam em áreas de encostas e vales suscetíveis a deslizamentos e enchentes mais graves. Mais da metade, na região Sudeste, que concentra a maior população em geral, e 17% na região Nordeste. A área mais povoada do país, ao longo do litoral e zonas da mata, estão assentadas sobre os solos mais acidentados e perigosos do país, revela mapa de risco de deslizamento desenvolvido pelo IBGE.
Boom populacional
No verão deste ano, temporais deixaram 50 mortos no estado de São Paulo, o dobro do registrado na estação no ano passado. Do total, 46 mortes ocorreram na Grande SP, reforçando a visão dos especialistas sobre a precariedade das periferias das regiões metropolitanas do Sudeste e Nordeste frente aos desastres climáticos.
As três cidades da região metropolitana de São Paulo mais afetadas passaram por um grande "boom habitacional" nas últimas três décadas, fenômeno que, segundo urbanistas, contribuiu para a ocupação desenfreada de áreas com risco de deslizamentos e inundações, e que se repete em grande parte do Brasil.
O IBGE levantou recentemente ainda os territórios mais perigosos para deslizamentos de terra. Mais da metade da área do estado do Rio de Janeiro é classificada como muito alta, enquanto 45% do território capixaba está na mesma condição. São áreas onde as ocorrências de chuvas estão diretamente associadas a acidentes geológicos.
Em agosto do ano passado, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) publicou seu relatório alertando para o padrão do aquecimento global e as possíveis consequências.
Segundo o documento, a emissão de gases de efeito estufa já é responsável, até agora, pelo aumento da temperatura no planeta em 1,1ºC desde 1850, quando a revolução industrial se tornou global. Parece pouco, mas meros 6ºC separam a última era do gelo do planeta que estamos acostumados.
O painel alerta que mantido o padrão dos últimos 170 anos – o que vem ocorrendo devido às acanhadas reduções de emissões de modo geral – chegaremos a um aumento de 1,5ºC até 2040. Isso seria suficiente para gerar ondas de calor crescentes, estações quentes mais longas e estações frias mais curtas.
Doutor em recursos hídricos e agrometeorologia e professora da UFU (Universidade Federal de Uberlândia), Roberto Atarassi explica que o aquecimento da atmosfera não gera apenas maiores temperaturas. “Temos que pensar no calor como energia; se a atmosfera retém mais energia, essa força vai acabar extravasando em fenômenos climáticos mais extremos”, diz. O mais corriqueiro destes fenômenos serão tempestades torrenciais, com maior potencial de desencadear tragédias.
Com o aumento de temporais extremos nas encostas das serras e zonas da mata do país, a população mais carente e moradora de áreas de risco acabará ainda mais ameaçada de tragédias como as que continuam ocorrendo em 2022, mesmo após o fim do verão.